Logo Já JornalBy Eliel Diniz
Política

Psicologia Social da "fuga" em debates

Por Eliel Diniz··18 leituras
Psicologia Social da "fuga" em debates
Compartilhar:

Por Eliel Diniz jornalista/psicólogo

A decisão de Flávio Bolsonaro de evitar debates do primeiro turno sem Lula pode ser analisada também pela psicologia social e pela lógica de construção de imagem eleitoral. A estratégia tem uma racionalidade clara: concentrar o conflito no adversário principal e evitar transformar adversários da mesma faixa ideológica em inimigos permanentes.

ORIENTAÇÃO

A própria organização da campanha de Flávio adotou a orientação de participar dos debates apenas quando Lula estiver presente, justamente para evitar ser o principal alvo dos demais candidatos.

O adversário que se quer fixar

Na psicologia social, a percepção política costuma ser organizada pela identificação de “nós” e “eles”. Para a campanha de Flávio, quanto mais clara for a associação Flávio x Lula, mais simples fica a mensagem eleitoral.

A eleição é uma escolha entre dois projetos

Isso evita que o eleitor passe a enxergar Flávio como apenas mais um candidato da direita disputando espaço com Caiado, Zema ou Renan Santos.

Um debate sem Lula cria uma situação particularmente delicada para Flávio. Se ele comparecesse, poderia ser atacado por candidatos que, em uma eventual segunda etapa da eleição, poderiam precisar apoiar sua candidatura.

Efeito da psicologia social

O problema psicológico é o chamado efeito de conflito interpessoal: ataques públicos produzem memória emocional e podem transformar uma disputa eleitoral momentânea em rejeição pessoal. A busca de uma ponte de relacionamento para o segundo turno se torna o ponto estratégico mais importante.

Se Flávio chegar ao segundo turno contra Lula, poderá precisar dos votos de eleitores que hoje apoiam Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos que são outros candidatos de centro-direita.

Existe um dado que reforça essa preocupação: pesquisa Datafolha mostrou que, num eventual segundo turno contra Lula, Flávio não consegue incorporar integralmente os eleitores dos outros candidatos de direita. Portanto, preservar esses eleitores é mais importante do que vencer um debate isolado.

Rejeição cruzada

Ao participar do debate se Flávio atacar duramente Caiado, os eleitores de Caiado podem não apenas discordar de Flávio naquele momento, mas passam a ter uma imagem construída de forma negativa do atacante. Esse eleitor poderá posteriormente ter dificuldade psicológica para transferir seu voto.

É o que podemos chamar, em termos eleitorais, de rejeição cruzada: o candidato conquista espaço contra um adversário, mas simultaneamente perde a possibilidade de receber seus eleitores no futuro.

O princípio da ameaça comum

Existe ainda um fenômeno bastante conhecido na psicologia social: grupos diferentes tendem a se aproximar quando percebem uma ameaça ou adversário comum. Na estratégia de Flávio, Lula funciona como esse adversário comum.

Flávio e demais forças de oposição x Lula/PT. Ao não participar do debate, há uma possibilidade de eventual recomposição no segundo turno. Isso é ”não transformar concorrentes em inimigos”.

A ausência também pode ser interpretada como uma forma de controle de danos.

Num debate, o candidato não controla completamente: as perguntas; os ataques; as provocações; as reações emocionais e os trechos que viralizarão nas redes sociais.

Uma resposta agressiva contra um concorrente pode gerar um vídeo de 20 segundos que circule durante semanas.

Assim, o custo de uma frase mal calculada pode ser maior que o benefício de vencer um confronto pontual.

Há, entretanto, um paradoxo...

Para parte dos eleitores, o debate do primeiro turno funciona praticamente como uma “primária informal”, na qual os candidatos de direita mostram quem teria melhores condições de enfrentar Lula.

Ao não participar, Flávio evita ataques, mas também abre espaço para que concorrentes apresentem suas próprias credenciais presidenciais.

Um risco de parecer arrogância

Existe um efeito psicológico negativo que a campanha precisa administrar. O eleitor pode interpretar a ausência não como estratégia, mas como: “Ele está com medo de enfrentar os outros candidatos.” Foi isso justamente uma das críticas feitas pelos candidatos que participaram do debate da Band.

Por isso, a estratégia exige uma narrativa alternativa: Flávio não estaria fugindo do debate; estaria escolhendo o adversário que considera realmente relevante. A frase “eles não são meus adversários”. Essa declaração de Flávio é psicologicamente importante. Ela procura rebaixar o conflito lateral e elevar Lula à condição de antagonista principal.

Efeito subliminar

Em termos de comunicação política, a mensagem seria: “Não estou disputando a mesma vaga com eles; estou disputando a Presidência contra Lula.”

Isso também pode funcionar como tentativa de transmitir liderança e favoritismo.

A grande aposta da estratégia

Primeiro turno: evitar brigas desnecessárias dentro do campo oposicionista.

Campanha: concentrar críticas em Lula.

Segundo turno: buscar os eleitores dos candidatos derrotados.

Objetivo psicológico

Chegar à segunda etapa sem ter acumulado rejeições pessoais entre os eleitores que serão necessários. Isso, porém, existe uma contrapartida pois a estratégia não é isenta de riscos.

Ao evitar os debates, Flávio também perde oportunidades de: apresentar propostas; mostrar personalidade própria; responder questionamentos; diminuir a percepção de que sua candidatura depende exclusivamente do sobrenome Bolsonaro.

Leitura final pela psicologia social

O raciocínio estratégico pode ser resumido em uma equação simples: menos confrontos laterais implica em menor rejeição entre possíveis aliados  que leva a maior possibilidade de convergência no segundo turno.

A campanha de Flávio parece apostar que ganhar um aliado amanhã é mais importante do que derrotar verbalmente um concorrente hoje.

O ponto central é que, em uma eleição polarizada, não basta conquistar votos; é preciso evitar perder antecipadamente os votos que poderão ser necessários no segundo turno.

E esse é justamente o dilema: a ausência protege Flávio dos ataques da própria direita, mas pode também privá-lo de uma oportunidade de se apresentar melhor ao eleitorado.

 


Compartilhar: